509 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE: SEMPER REFORMANDA
509 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE: SEMPER REFORMANDA
“Ecclesia reformata, semper reformanda secundum verbum Dei.”
No dia 31 de outubro, celebram-se os 509 anos da Reforma Protestante. Nessa mesma data, em 1517, Martinho Lutero, monge agostiniano, tornou públicas suas 95 teses em Wittenberg, na Alemanha, questionando práticas da Igreja de seu tempo, especialmente os abusos relacionados às indulgências. Seu propósito inicial era promover um debate e chamar a Igreja à correção à luz das Escrituras. A Reforma Protestante tornou-se um movimento de renovação da fé cristã, reafirmando a salvação pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo (cf. Ef 2.8,9).
Lutero se opôs à comercialização das indulgências, que levava muitos fiéis a acreditar que pagamentos poderiam ajudá-los a obter benefícios espirituais. Embora as indulgências não fossem, oficialmente, a compra direta do perdão dos pecados, seus abusos contribuíram para transformar a fé em negócio e confundir a consciência do povo.
O movimento pentecostal, surgido no início do século XX, também herdou princípios importantes da tradição protestante, como a autoridade das Escrituras e a centralidade de Cristo, enfatizando ainda a atuação do Espírito Santo na vida da Igreja.
Cinco séculos se passaram, e a Reforma continua sendo lembrada em sermões, congressos e publicações. Contudo, de que adianta celebrar a Reforma se continuamos repetindo erros que ela nos ajuda a reconhecer?
No passado, os abusos das indulgências alimentavam a ideia de que benefícios espirituais poderiam ser obtidos mediante pagamentos. Hoje, em determinados ambientes religiosos, promete-se prosperidade em troca de ofertas, como se fosse possível negociar com Deus. Lutero questionou práticas que confundiam dinheiro e benefícios espirituais; nós também precisamos questionar toda prática que transforma a fé em mercadoria.
Além disso, muitos fiéis são levados a acreditar que precisam cumprir determinadas regras denominacionais para alcançar a salvação, como se somente uma igreja pudesse conduzi-los ao céu. Ter tradições e costumes não é o problema. O problema é transformá-los em critérios de salvação, colocando regras humanas no lugar da graça de Deus. Os costumes podem variar entre comunidades e culturas, mas a salvação é dom de Deus, recebido pela fé em Cristo. A santidade e a obediência são frutos de uma vida transformada pela graça, e não pagamentos para conquistar o favor divino.
Assim como Lutero defendeu um retorno às Escrituras, nós também precisamos permitir que a Palavra de Deus examine e corrija nossa vida e nossas práticas religiosas. A reforma de que precisamos não acontece apenas nos templos, mas também no coração. Precisamos lembrar que o perdão não se compra, que a presença de Deus não é mercadoria e nenhuma tradição humana pode substituir o novo nascimento.
Celebrar a Reforma sem viver seus princípios é como guardar o retrato de um avivamento sem permitir que o Espírito Santo continue transformando a Igreja.
Os cinco pilares da Reforma continuam atuais e necessários:
Sola Scriptura: somente a Escritura é a autoridade final para a fé e a prática cristãs.
Sola Fide: somos justificados pela fé, não por méritos ou obras humanas.
Sola Gratia: somos salvos pela graça de Deus, não por nossas práticas religiosas.
Solus Christus: somente Cristo é o mediador entre Deus e os seres humanos.
Soli Deo Gloria: somente a Deus pertence toda a glória.
O verdadeiro protestante é aquele que está disposto a confrontar tudo o que afasta a Igreja da fidelidade a Cristo, começando por examinar a si mesmo.
Enquanto houver púlpitos que transformam o ministério em negócio, a fé em instrumento de manipulação e a graça em moeda de troca, a necessidade de reforma permanecerá. Afinal, não basta honrar a memória dos reformadores; precisamos viver segundo a Palavra que eles nos chamaram a redescobrir.
Reformar-se é corrigir tudo aquilo que nos afasta do verdadeiro Evangelho.
Semper reformanda secundum verbum Dei.
Pr. Rafael Assiz | @rafaelassiz
Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Pós-graduado em Teologia e Interpretação Bíblica pela FABAPAR, em Estudos Bíblicos no Novo Testamento pela UniCesumar e em Aconselhamento e Psicologia Pastoral pela F.I. Escritor, teólogo e pastor da Assembleia de Deus. E-mail: rafaelassiz@hotmail.com
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