QUANDO A “IGREJA” DEIXA DE SER IGREJA
QUANDO A “IGREJA” DEIXA DE SER IGREJA
A Bíblia nunca apresenta a igreja somente como um prédio, uma instituição ou uma tradição recebida. A igreja é, antes de tudo, um povo que vive em fidelidade ao evangelho. Ela é uma comunidade viva, sustentada pela verdade, com Cristo no centro e marcada por uma vida santa que nasce da graça. Por isso, a pergunta principal não é se há culto, membros, líderes ou atividades. A pergunta verdadeira é: quem está no controle dessa comunidade?
A igreja deixa de ser igreja, quando o evangelho deixa de ser anunciado e passa a ser usado. O evangelho não foi dado para ajudar pessoas a realizarem sonhos pessoais, sustentarem projetos de poder ou fortalecerem uma marca religiosa. O evangelho é a boa notícia de que Deus salva pecadores pela graça, por meio da fé, por causa de Jesus Cristo, e chama essas pessoas ao arrependimento e a uma nova vida. Quando essa mensagem é diluída, distorcida ou usada como ferramenta, não se trata somente de um erro de ensino, mas de um afastamento sério da essência da igreja (cf. Gl 1.8).
A igreja também deixa de ser igreja, quando Jesus deixa de ocupar o centro da prática, mesmo que seu nome seja muito citado. É possível falar de Jesus o tempo todo e, ainda assim, organizar a vida da “igreja” em torno de um líder dominador, de uma marca conhecida ou de um sistema fechado de pertencimento. A Bíblia não diz que Cristo inspira a igreja; diz que Ele é o cabeça dela (cf. Cl 1.18). Quando a igreja passa a seguir uma “visão”, um “DNA” ou um “projeto” que não seja simplesmente seguir a Cristo conforme as Escrituras, ela deixa de agir como corpo e passa a agir como império. Corpos seguem a cabeça; impérios exigem obediência cega.
A igreja deixa de ser igreja, quando o pecado grave é escondido de forma consciente. Em 1 Coríntios 5, Paulo mostra que pecado público e tolerado não pode ser tratado como assunto privado. Proteger o pecado não é sinal de amor ou misericórdia, mas de doença espiritual. Quando quem denuncia o erro passa a ser visto como problema, quando vítimas são silenciadas e quando a reputação da instituição vale mais do que a verdade, algo está muito errado. A igreja foi chamada para sustentar a verdade, não para administrá-la conforme interesses.
Outro sinal claro é quando a liderança passa a usar a autoridade de forma dura e controladora. A liderança bíblica é para servir, e não para ser servida. A Bíblia reconhece que líderes têm autoridade (cf. Hb 13.17), mas essa autoridade tem limites. Ela deve estar debaixo da Palavra e ser exercida com humildade e temor. Pedro é claro ao dizer que pastores não devem dominar o rebanho, mas cuidar dele com exemplo (cf. 1Pe 5.2,3). Quando líderes exigem obediência sem discernimento, anulam a consciência, usam o nome de Deus para legitimar controle e deixam de pastorear. Nesse ponto, passam a agir como donos daquilo que Deus confiou, não como servos do que lhe pertence. E quando obedecer à liderança significa desobedecer a Deus, o limite foi ultrapassado (cf. At 5.29).
Na maioria das vezes, a igreja não deixa de ser igreja de uma hora para outra. Isso acontece aos poucos. Pequenos erros são tolerados, depois justificados e, por fim, protegidos. O problema não é só o que se faz, mas o que se passa a aceitar como normal. O amor perde a ordem: passa-se a amar mais a estrutura do que a verdade, mais a estabilidade do que a santidade, mais a reputação do que a cruz.
A igreja é uma igreja enquanto vive debaixo do senhorio real de Cristo, guiada pela Palavra, transformada pela graça e comprometida com uma vida santa. Quando isso se perde, ainda pode haver culto, música, programação e linguagem religiosa. Mas a igreja, no sentido bíblico e espiritual, já não está ali.
— Rafael Assiz
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